Arquivo Literário Séc. XIX

Poeta Fernando Griz (1876 - 1931)


O poeta Fernando Griz nasceu no ano de 1876. Filho de pai italiano dono de padaria, o jovem Fernando não quis seguir profissão no comércio. Na autobiografia conta que, desde cedo, contrariando a vontade do velho e autoritário Miguel Griz, preferiu as letras, fugindo do balcão para ler os livros do Club Literário. Esse interesse precoce pelo mundo da leitura fez o poeta lançar, aos 16 anos, na companhia de Fábio Silva, o semanário A Semana. Jornal que circulou em Palmares no ano de 1892.

No ano seguinte, na companhia do mesmo Fábio Silva e de Carlos Coelho (irmão de Fábio), publicou a revista de bolso Arquivo Literário de Palmares, reunindo poetas e cronistas locais, além de abrir espaço para correspondências, glosas populares e charadas. Aos 18 anos deixou a residência dos pais e foi morar com alguns colegas, na república de estudantes chamada "República dos Simples", em homenagem ao livro "Os Simples" do poeta português Guerra Junqueira. A república ficava num casarão alugado na Praça Maurity e, além de dormitório para jovens estudantes e funcionários no comércio e na Ferrovia Sul de Pernambuco, serviu de endereço para as Conferências Literárias Boêmios de Palmares e publicação do jornal Novo Echo, um periódico literário e noticioso que circulou entre os anos de 1894 e 1895. Também esse grupo autodenominado boêmios fundou um bloco carnavalesco chamado "Heróis da Época", além de improvisar peças teatrais e saraus nas dependências do Club Literário.

Desfeitas essas "estripulias literárias", Fernando Griz casou-se e passou a residir em engenho da família da esposa. O engenho vai à falência e o poeta de pouco mais de vinte anos muda-se para Recife. Na capital inicia atividades em emprego público, na Fazenda Estadual. Na fase recifense, o poeta participou dos círculos intelectuais do famoso café Lafaiete e, além de escrever para diversos jornais de Recife e Palmares, publicou livros em prosa e verso. Sua obra pode ser considerada, no contexto da Geração 1870, um conjunto de textos pré-modernistas, iniciados no romantismo tardio, passando pelo simbolismo, chegando à fase literária em que o Recife recebia os influxos dos movimentos Modernista e Regionalista, bastante conflitantes na inovação cultural da década de 1920.

No Recife, o poeta escreveu e publicou: 1915 - Minha Musa; 1917 – Epopeia Sangrenta; 1918 - Brumas e Clarões; 1924 - Sonhos e Lutas; 1927 - No Campo das Ideias. O livro Poetas dos Palmares (2002) assinala que também deixou inéditos, os livros: Sonho que se desfez (artigos e crônicas) e Treva e Luz (poemas). Fernando Griz faleceu em 1931. No ano seguinte, seu filho Jayme Griz, em nota enviada ao jornal A Notícia, ofereceu a biblioteca do poeta ao Club Literário de Palmares, falando cumprir a vontade do pai, em retornar ao velho Club. Alguns volumes remanescentes dessa coleção de livros, até as enchentes de 2010, faziam parte da estante nomeada "Fernando Griz".


Poeta Fábio Silva (1876 - 1908)


Fábio Coelho Silva nasceu em Escada, no ano de 1876. Seu pai, funcionário da Ferrovia Sul de Pernambuco, mudou-se para Palmares no ano da Emancipação da cidade, em 1879. Até as inundações de junho passado, seu nome ilustrava uma estante de livros nunca mais manuseados. Três fileiras de volumes do século XIX. Um móvel de madeira e vidro protegendo o que restava do acervo do Clube Literário de Palmares. Um portal do tempo que abria a sala de raridades da Biblioteca Municipal Fenelon Barreto, sucessora cinquentenária da antiga sociedade de leitores e escritores palmarenses.

A estante “Fábio Silva”, encostada na parede, imitava um museu alexandrino na companhia das empoeiradas “Fernando Griz” e “Dr. Costa Maia”, também abarrotadas de volumes sobre diversos assuntos. Um tesouro da memória do lugar, selado por um patrono de nome tão singelo. Apenas um nome dizendo algo desconhecido sobre o passado que inflacionou uma constelação de poetas sem glórias literárias. Um lampejo de infelicidade comum entre os homens de letras e boêmios da Geração 1870. 

O poeta Fábio Silva faleceu jovem, aos trinta e dois anos de idade. Em setembro de 1908, indicou que o enterrassem em cova singela sem insígnias ou homenagens. Após a morte do poeta, um grupo de amigos organizou, publicou e distribui um opúsculo pela passagem do trigésimo dia, louvando as qualidades do jovem literato que deixou esposa e cinco filhos, uma obra em prosa e verso e o nome gravado na história de resistência do Club Literário de Palmares. A lápide, portanto, não jaz em cemitério de pedra e cal. O nome de Fábio estava grudado no verniz envelhecido da estante da Biblioteca, endereço mais apropriado para quem deixou poemas, artigos e contos espalhados em muitos jornais de Palmares e Recife. 

O poeta havia se transferido, em 1906, para Recife, onde fez parte da equipe de redação de Arthur Orlando, no sexagenário do Diário de Pernambuco, como tradutor de telegramas e documentos em inglês. Fábio ou “Silvio de Vau” publicava em 1908, antes de contrair varíola e adoecer, contos infantis em coluna semanal no Diário de Pernambuco. No que escreveu encontramos um autodidata orgulhoso, um poeta herdeiro da trinca Gonçalves Dias – Castro Alves – Casemiro de Abreu e um telegrafista. Profissão aprendida na Great Western Brazil Railway, em Palmares, e depois desenvolvida na curtíssima experiência recifense. 

Por isso, a maior parte da obra do “poeta que virou estante” encontrar-se nos jornais publicados em Palmares de 1892 a 1908: o Jornal A Semana, entre outros, a Revista Arquivo Literário de Palmares, o Novo Echo e O Progresso são testemunhos da escrita e das atividades de editor, redator-chefe e colunista que exerceu, enquanto atuava na diretoria do Clube Literário e promovia, com outros jovens, as Conferências Literárias Boêmios de Palmares. Uma bela página da história das letras de Pernambuco. Página à espera de pesquisa e escrita historiográfica.