HISTÓRIA, MEMÓRIA E REPRESENTAÇÃO DE ENCHENTES EM PALMARES: UM ESTUDO DE HISTÓRIA AMBIETAL

Resumo:


O presente artigo versa sobre história, memória e representação do fenômeno das enchentes do Rio Una, bacia hidrográfica do sul de Pernambuco, destacando como a população de Palmares, uma das cidades periodicamente atingidas, lidou com o espaço socioambiental das enchentes, incluindo a ocupação das margens do rio, a destruição da Mata Atlântica, o cultivo extensivo da cana-de-açúcar, processo iniciado com as instituições do latifúndio, monocultura e escravidão e redimensionado, durante o século passado, pelas atividades agroindustriais capitalistas, tratando-se de estudo no campo da História Ambiental.

Palavras-chave: História Ambiental, Memória e Representação de enchentes em Palmares-PE, Desenvolvimento socioambiental.


INTRODUÇÃO
:


O que a memória alcança e verbaliza sobre grandes enchentes do Rio Una, em Palmares - região canavieira de Pernambuco - neste artigo que se pretende filiado à História Ambiental? A memória aguçada pelo último desastre, a gigantesca enchente de junho de 2010? As marcas das inundações em série, contando especialmente aquelas ocorridas em 1975 e 2000? Inundações que destruíram, em diferentes proporções, a cidade baixa. O rasgo urbano espremido entre a calha do rio e os trilhos da ferrovia, colocados ali em 1862. Caminho de ferro um pouco acima, separando o centro de Palmares dos bairros altos da cidade. Bairros onde reside a maior parte da população de baixa renda, subempregada, pouca escolaridade e desligada das identidades históricas e memórias locais. Uma população constituída ao longo dos anos sessenta, distante da formação daquela cidadezinha de famílias tradicionais que, na passagem para o século passado, estavam a serviço das atividades rurais ligadas ao cultivo da cana, fabrico do açúcar e comércio local. Tempo em que a cidade dependeu do transporte ferroviário e da reprodução dos ciclos de plantio e corte da cana-de-açúcar. Cidade que se considerava, ufanamente, uma das mais importantes do interior de Pernambuco.

Uma história de ocupação que começou nas margens ribeirinhas do Una. Primeiramente, pelo antigo povoado dos Montes, alçado à condição de comarca em 1873. Povoação que se desenvolveu considerando a importância estratégica da Estação do Una, o último ponto da Ferrovia Sul de Pernambuco . Empresa dona dos trens que aguardavam prosseguir na direção do agreste e do sertão, chegarem a Alagoas e encontrar o Rio São Francisco. Segundo, o crescimento populacional de Palmares – município em 1879 – devido à presença e importância dessa ferrovia e das usinas de açúcar. Máquinas impiedosas na degradação ambiental, destruição da mata atlântica, poluição dos rios e erosão dos solos. Práticas justificadas pela ampliação da atividade monocultora e da extensão máxima das áreas cobertas pelos canaviais.

Novos cenários que chegavam acompanhados por esses empreendimentos baseados na reprodução capitalista: na época em questão, o capitalismo não possuía, na agenda de seus interesses, os cuidados com ambiente natural. No caso da fábrica de açúcar, as práticas da lavoura tradicional prejudiciais à mata atlântica foram mantidas e expandidas em nome do lucro. Aceleraram-se, portanto, ao longo da primeira metade do século passado, os processos de desmatamento, aniquilação da mata ciliar e assoreamento da calha dos rios e riachos da zona da mata pernambucana.


Memórias de um bairro ribeirinho em Palmares

Uma consequência direta da expansão dessas fábricas de açúcar, a decadência dos antigos engenhos, vítimas da “modernização” imposta pelas usinas, resultou no fluxo de moradores para o espaço urbano, preferencialmente, fixados às margens dos rios. Em Palmares, no começo do século passado, o bairro conhecido como Pedreiras ou, originalmente, Rua do Rio, aparece em poesia de Ascenso Ferreira (1895 – 1965), ali nascido, como um exemplo dos tipos humanos e relações socioambientais marcadas pela formação de bairros populares.

No começo da rua / morava Agostinho – o aleijado – a quem o povo acusava de alimentar-se de coisas imundas: / Bichos imundos apanhados nos fundos dos quintais! // Fronteiro a ele morava o pedreiro Manuel Belo, que por ter sido mordido de cachorro da moléstia, / quando falava com a gente avançava como um cão! // No meio da rua morava a celebérrima preta Inês, / Catimbozeira “afamanada”, / Sempre às voltas com sapos e urubus! // Na outra ponta morava a mulata Filomena, / A quem um jacaré acuou dentro de um banheiro no rio. // E que saiu nuinha pela estrada afora gritando “Me acudam!” // Mas nem tudo, na Rua do Rio, era infâmia, nojo, abominação! // Na outra ponta da rua... Morava o fogueteiro Lulu Higino, / que no silêncio das noites consteladas, / arrancavam da flauta uns acordes tão suaves...

Nesse texto de memória poética, podemos intuir que o bairro das Pedreiras servia de moradia para pessoas humildes. Tipos populares, certamente a serviço das atividades do centro comercial e dos sobrados de senhores de engenho, comerciantes e funcionários importantes da Ferrovia Sul e outras repartições públicas já instaladas na época (Prefeitura, fórum, cartórios, coletoria, delegacia, escolas, etc.). Esse o primeiro desenho urbano da cidade, formada ao longo das margens do Rio Una, enquanto os pontos mais altos, com algumas construções eram, basicamente, o prédio da Estação ferroviária e o cemitério municipal, lugar onde se erguia, nas proximidades, o baixo meretrício e mocambos de biscateiros e “vadios”. Bairro de fama duvidosa, chamado Alto do Lenhador. Lugar de fronteira com a capoeira de onde se retiravam o combustível vegetal para queimar nos fogões domésticos de gente miúda. Seguindo os trilhos, na direção da Estação do Una, formava-se o Alto do Inglês . O local dos chalés dos administradores e engenheiros da empresa Ferrovia Sul; à esquerda da Estação, os escritórios e oficinas, seguidos da vila dos ferroviários, o ponto mais extremo do desenho urbano da cidade, naquele final de século XIX. Construções distantes das margens do Una e do Pirangi. Locais sem risco maior para o capital inglês ali investido. Pontos escolhidos, a partir de esboços topográficos e geodésicos. Estudos ingleses importantes para que Palmares fixasse, durante décadas, os trilhos finais da Ferrovia Sul de Pernambuco.

Fora desse elevado dos trilhos da ferrovia, há alguns metros da margem do rio, o que hoje compõe os bairros da cidade alta, não passava de restos de mata atlântica, capoeira, partidos de cana e espaçadas moradias de pequenos lavradores ou criadores de cabras, porcos e galinhas. Mais adiante, afastando-se do centro da cidade, os engenhos Paul, Japaranduba, Bom Destino, Pirangi, etc. Fontes de poder, tradição e comando local. Os endereços de onde saíram os primeiros prefeitos e vereadores da cidade, exclusivamente interessados em benfeitorias do centro comercial, onde se edificaram a Catedral de Nossa Senhora da Conceição e a Praça do Mercado Público.
Os primeiros símbolos da ocupação urbana, demarcada por essa elite sem interesse com o lugar dos mocambos, estrebarias e chiqueiros. Pontos de habitação que deveriam ficar à margem, vigiados de perto, para dali não se espalharem os vícios, os costumes, as lendas e crendices dos matutos. Devemos lembrar que a cidade começava na época em que ideias higienistas e de embranquecimento da raça prosperavam nos meios acadêmicos e políticos.

Certamente por isso, os tipos moradores apresentados por Ascenso Ferreira, na memória da Rua do Rio, apontem o processo de “abominação” das pessoas residentes além do espaço urbanizado e civilizado dos senhores de terra e casas comerciais: o aleijado Agostinho, certamente sem condição de trabalho ou renda, catava lixo para comer; o pedreiro Manoel Belo era grosseiro, analfabeto e mal-educado; a catimbozeira preta Inês, fazia feitiços com sapos e urubus; a mulata Filomena era uma mulher sozinha e pobre, que tomava banho no banheiro público à beira do rio, às voltas com intrusos, jacarés e outros bichos da fauna tropical. Um conjunto de representações de como era a vida das populações que começaram habitar a região ribeirinha da cidade. Rio ainda, na época, marcado pela presença da fauna e flora típicas da mata atlântica, já suficientemente reduzida pela lavoura canavieira e extração de madeira de suas árvores para combustível nas residências, engenhos e usinas. O que começava, na formação desse bairro das Pedreiras, era a relação da cidade com as margens do rio. Relação agravada, ao longo do tempo, pela presença de agentes de poluição ambiental – as usinas poluíam a água, o ar e o solo – enquanto o aumento da população urbana atacava as matas da região, desmatando, caçando e pescando sem quaisquer cuidados ou tradição no manejo dos recursos da natureza.

A tradição comunitária de manejo da natureza encontrava-se em xeque, considerando a ideia corrente de que o valor das coisas estaria no progresso e nos ambientes civilizados da sociedade. A natureza nada valeria sem que transformada em recurso natural. Assim, mesmo entre pensadores e intelectuais brasileiros de final do século XIX, essa ideia oscilava da posição romântica, tentando enxergar na beleza do país tropical, o idílio de uma suporta identidade, à posição moderna interessada em ver, na moldura da natureza rica e oportuna, os recursos necessários para o progresso e o futuro do Brasil. País rico e abençoado, dono de terras e rios colossais, minas e campos infindáveis, praias e florestas ainda por se explorar e extrair riquezas .

Pensando desse modo, é possível encontrar em textos locais, as representações da natureza que embalavam doutores, poetas e cronistas, aparecendo à descrição do fenômeno das enchentes do Rio Una, a valorização do progresso e a procedente desvalorização da natureza? Um texto publicado no jornal palmarense Novo Echo, em outubro de 1894, dá conta desse registro histórico. Relata, talvez, a primeira inundação que atingiu a cidade construída ao longo da margem do Una. Traçado urbano estendido da Estação do trem até as terras do Engenho Japaranduba. Desenho que os primeiros habitantes da cidade tomaram como viável, espremidos pelo latifúndio, habitando uma nesga de terra realenga. Afinal, ultrapassados os trilhos da ferrovia, tudo pertencia a algum antigo engenho colonial; na outra margem do rio, as plantações de cana ganhavam o horizonte.

Representação de enchente ocorrida no ano de 1894

Os mais antigos registros de enchentes em Pernambuco datam de 1632. No mês de fevereiro daquele ano, o Rio Capibaribe destruiu casas e armazéns no Recife. A partir desse registro, em décadas sucessivas, geralmente entre os meses de junho a agosto, no período das chuvas, encontram-se registros de que as regiões do litoral, da mata e áreas do agreste sofreram com o fenômeno das enchentes. Numa sucessão de intervalos regulares, elas ocorrem a cada década com intensidade variada, aparecendo, em 1870, recomendação do diretor de Obras e Fiscalização do Serviço Público da Província, Dr. José Tibúrcio Pereira de Magalhães, sugerindo ao Governo Imperial a construção de varias barragens nos afluentes do Rio Capibaribe, para se evitar enchentes no Recife, providência somente encaminhada nas décadas finais do século passado. Anos depois desse registro de engenharia, em julho de 1884, nova ocorrência na capital e em outras áreas litorâneas. O ciclo acontece novamente, uma década depois, em junho de 1894, inclusive, registrado em Palmares.

O Jornal local Novo Echo anota, daquele rigoroso inverno, forte inundação na região. Talvez seja o primeiro registro escrito de enchentes no Município. Meses depois desse incidente, chama atenção uma crônica enviada aos redatores do jornal, por um leitor da cidade do Recife. Crônica que transcrevemos para ilustrar as questões socioambientais aqui desenvolvidas:

A Palmares

Imaginem uma cidade inteiramente ilhada pelas revoltas águas de um rio enorme, que tem a força de demolir edifícios e derrubar árvores. Assim estava Palmares. Nos altos, uma multidão de homens e mulheres que se agasalham nos matagais molhados, nos campos frígidos; trapos por toda a parte, a esmo; três a quatro jangadas que promovem a salvação do povo. E as águas com força, fortemente a subir. Pela tarde, quando o sol ia se afastando dos montes, bem poderia um freugmático dizer: é uma cidade que se afoga.

Baixaram as águas morosamente. Depois de alguns dias de espera lembrei-me do expediente de Noé quando soltou a pombinha querendo certificar-se se havia terminado o cataclismo das águas. Mas faltava-me tudo. Eu não estava numa arca, não havia engaiolado um casal de todos os animais que povoam a terra. Ainda mais, eu não era Noé, eu não era o meu avô. Fui, pois, eu mesmo, buscar o ramo de oliveira. Andei por toda a cidade, percorrendo todas as ruas, ainda enlameada, admirei-me da ruína extraordinária que fizera o rio, andei por todos os becos e a única coisa que me agradou, que me serviu, deste empório comercial que se oculta nas sombras do interior de Estado, foi à visita da biblioteca do Clube Literário, que poderia ser um foro perene de ilustração, se não fosse reparavelmente esquecida. A única coisa, sim. De que serve admirar árvores, palmeiras, campo e caniços? De que serve ver uma planície vasta, atapetada de flores? Do que serve o canto do canário, os arrulhos da rola, os gorjeios dos sabiás?

Pude afinal voltar; havia reaparecido a terra. Estava restabelecida a locomoção e feita minha viagem demorada, aborrecida. No entanto, apesar dos contratempos acometidos ainda experimento saudades da viagem que fiz a cidade, onde vive a propulsora força dos altos cometimentos.
(Recife, outubro de 1894). Assinou: Z. X.

O narrador descreve uma cidade tomada pelas águas e a fuga de uma multidão para os altos e matagais. Centenas de homens e mulheres, com seus familiares, esperando as águas baixarem para voltar às residências. Essa descrição confirma que o traçado urbano encontrava-se espremido entre o rio e os trilhos da ferrovia, que, por sua vez, há três décadas, encontraram um povoado organizado a partir de um antigo engenho banguê. O engenho Trombetas, cujos proprietários mandaram edificar a capela de Nossa Senhora dos Montes . Uma construção iniciada em 1848, transformada em marco zero do povoado. Construída para o nascente, na direção do rio, nos dias atuais os fundos dessa igreja fazem parte da calçada da principal rua comercial de Palmares. Um desenho um tanto quanto particular, considerando que a maioria de igrejas e templos da época encontra-se construída em áreas frontais às praças, apresentando pátios e jardins. Porém, em Palmares, como o traçado original da cidade seguiu o curso do rio, as ruas centrais formaram-se, ao longo do tempo, seguindo esse traço original, reproduzindo ruas estreitas, até margear, com os fundos de prédios e casas, os barrancos, várzeas e bancos de areia do Una.

A ocupação das margens ribeirinhas pode-se verificar, foi destruindo a vegetação ciliar, aterrando áreas alagadas, despejando dejetos e detritos nas águas, assoreando a calha do rio. Podemos assim concluir que, ao longo do perímetro urbano, devido à relação diferenciada da população com o rio, apareceram ali os que viviam da pesca, da lavagem de roupas, banho em cavalos, criação de porcos, pequenas lavouras, etc., apreciando o rio de maneira objetiva, retirando dele e de suas margens o sustento; enquanto poetas e cronistas, louvando a beleza do Una, apreciavam, com subjetivismo, suas características bucólicas, marcando a memória poética da cidade, aliás, como faz o poeta Ascenso Ferreira no texto aqui citado. Porém, longe dessas tradições, muitos começavam usar o rio como lugar para despejo de dejetos das usinas. Assim, podemos dizer que as percepções da população contemporânea da enchente de 1894, seguiam atividades de uso ribeirinho de pouco impacto ambiental, enquanto a racionalidade do lucro da agroindústria desprezava a natureza, as comunidades ribeirinhas, as autoridades sanitárias e, mesmo, as posições higienistas de organização e embelezamento das ruas centrais da cidade. Um rastro dessa questão aparece na mesma edição do Novo Echo, um aviso denunciando o lançamento de “caldas” nas águas do rio:

Conta-nos que estão novamente lançando no Rio Una as caldas das usinas circunvizinhas à cidade, prática esta que resulta em total podridão. Precisamos de higiene!

Ou seja, enquanto os redatores do jornal cobravam “higiene”, o cronista da carta “A Palmares”, desqualificava a natureza, perguntando, depois que as águas baixaram, “de que serve ver uma planície vasta, atapetada de flores? do que serve o canto do canário, os arrulhos da rola, os gorjeios dos sabiás?”. Tais representações encontravam-se imbricadas com a ideia de progresso e com o processo civilizador que estruturava o discurso letrado da época. Fosse o de ideal de assepsia dos defensores da civilização ou a negação da natureza dos propensos ao triunfo do cientificismo, a questão é, provavelmente, que as enchentes de 1894 foram assimiladas como um evento natural, próprio da grandiosidade do rio.

Baixadas as águas, o esforço de reconstrução não considerava transformações urbanas, deslocamentos para áreas mais altas, ou mudanças de hábito. A população insistiria, ao longo das primeiras décadas do século passado, na ocupação das margens do Rio Una, enquanto a cheia passava a representar uma espécie de resignação urbana, como evidencia esse soneto de junho de 1914, publicado por Ascenso Ferreira, no jornal A Notícia:

Num ímpeto voraz, infrene e majestoso
Vai o rio a correr tomando pela cheia;
E ferve, e galga e salta e ruge e cascateia,
Profundo, gigantesco, insano, tenebroso!

A tudo inunda, a tudo escala, a tudo ansioso
Faz seu leito levar que mais a mais alteia.
Já não mais se quebra ali... Além já não volteia,
Mas sim a tudo escala enorme e furioso.

Tal também sobre o rio escuro da minha alma
A cheia da descrença imensa e pavorosa
Vive sempre a rugir, ausentando-me a calma.

Cheia negra, cruel, de enormes dimensões,
Que nos surge de chofre e carrega impiedosa
Devolvendo à correnteza as nossas ilusões!

O jovem poeta nos deixou a imagem da repetição do fenômeno natural, aliando-o ao sentimento de impotência diante do desastre provocado pelo rio. O estilo parnasiano do soneto que escreveu, aproveita o sentimento épico. Transforma a cheia na inferência de novos e enormes prejuízos, sempre “devolvendo à correnteza” a ilusão de se tratar de um acontecimento aparentemente adormecido, que, no entanto, surpreende pelo “ímpeto voraz”. Aparecem desse modo, o temor e a resignação que marcam os episódios das enchentes nos primeiros tempos da cidade.
Tais representações, as depreciativas da natureza ou as resignadas pela presença do rio, formataram a percepção urbana das cheias, como um problema sem solução aparente. Tema inclusive evitado pelos administradores locais, até recentemente, sem nenhuma política pública, plano ou mesmo discurso apontando solucionar os impactos causados pelo ciclo das enchentes. Talvez, somente na grande cheia de 1975 é que se incluiu, no horizonte dos administradores locais, o tema das enchentes como índice nas preocupações políticas e administrativas da cidade.


História Ambiental e análise histórica das enchentes em Palmares


O objeto definido por Worster (1991) esclarece a pretensão metodológica desse artigo que, primeiramente, indaga: para que a História Ambiental? Responde o historiador ambiental norte-americano: – para entender como os seres humanos foram afetados pelo ambiente natural e inversamente como eles afetaram esse ambiente e com que resultados. Ou melhor, o objeto da História Ambiental não se reduz à lógica da ocupação e transformação do espaço pelo homem, porém, pela dinâmica dos resultados dessa transformação. Nessa perspectiva, a definição formulada por Drummond (1991), sobre os objetivos da História Ambiental, seus temas, fontes e linhas de pesquisa no Brasil, muito respalda o recorte local e as temporalidades aqui tratadas. O objetivo seria identificar, em escala regional e local, que tipos de sociedade se formaram em tomo de diferentes recursos naturais, que permanência tiveram essas sociedades e que tipo de consequências elas criaram para os seus ambientes sustentarem outros tipos de sociedade.

A formação da cidade ribeirinha premida pelo latifúndio canavieiro e depois cortada pela estrada de ferro, no limiar da fronteira urbana, inscreve-se na escala que procura “retomar o tema da história dos ciclos econômicos, em claves ambientais” de que também fala Drummond (1991), para compreender como os nichos de ocupação em ecossistemas – o exemplo da mata atlântica – foram ocupados e transformados ao longo do tempo, e de como passaram a ser representados, estocados na memória e no imaginário das populações impactadas pela relação que travaram em torno desses recursos naturais explorados, o caso particular desse estudo, desde o ciclo econômico do açúcar colonial, rearticulado pelas usinas mecanizadas e modernas, potencialmente poluídos pelos núcleos urbanos ali formados sem nenhuma política de preservação construída até recentemente.

Pensando assim, o que interessa é a análise histórica – aqui pretendida – no campo da pesquisa que considera a ocupação da mata atlântica como o cenário mais remoto envolvendo as seguintes questões: por que edificar uma cidade às margens de um rio de repetidas enchentes? E por que não ter ocorrido ainda uma solução que interfira no conhecido processo que destrói ciclicamente a cidade histórica? Ou como se explique a relação entre a cidade e o rio, construída e representada ao longo de tantos desastres? Afinal, que clave é a Mata Sul no conjunto de transformações socioambientais em curso?

A equação das questões acima deve partir da relação entre a plantation canavieira e a ocupação da Mata Atlântica:

1º. A política de uso extensivo do solo, para plantio de cana-de-açúcar, impulsionou a interiorização a partir do litoral, seguindo os cursos dos principais rios e afluentes presentes na chamada Zona da Mata. Os rios forneciam força motriz para as moendas e ambientes para lavoura de subsistência, pesca e, se navegáveis, para escoamento da produção até o oceano. Ou seja, a partir dos rios se devastou a Mata Atlântica, logo transformada em fornecedora de madeira para construções e lenha para carvão em fornalhas de olarias, fornos domésticos e produção de engenhos e povoados;

2º. A fauna e flora abundantes passaram por intensivo processo de extrativismo ou destruição indireta, principalmente, pelo fogo das queimadas. Prática danosa para devastação de grandes áreas, provocando desequilíbrio e degradação ambiental. Prática secular ainda presentes na cadeia produtiva do açúcar;

3º. O núcleo urbano ribeirinho inscreve-se nesse cenário, aparecendo um engenho construído às margens do rio, logo depois transformado em povoado, adiante, alçado à condição de cidade com a chegada do transporte ferroviário, área urbana poluída com a presença das usinas e aumento da população;

4º. A destruição da Mata Atlântica é feita ao longo do processo de ocupação da área, principalmente a partir das usinas de açúcar, que herdaram a posição estratégica dos antigos trapiches, acomodando-se nas áreas ribeirinhas, facilitando o descarte de dejetos industriais via curso das águas ou construído reservatórios e barragens sem a medição dos impactos sobre o meio ambiente.

A grande vítima desse processo de poluição dos rios, as cidades ribeirinhas da região sofreram, ao longo do século passado, a combinação entre degradação ambiental e decadência econômica: engenhos e usinas, sob a égide do latifúndio, estagnaram a capacidade de acompanhar as mutações capitalistas em curso, transformados em claves econômicos dependentes de inúmeras medidas estruturantes, entre as quais a questão ambiental se inscreve, solicitando um conjunto estratégico que considere a relação entre a bacia hidrográfica, a presença de reservas de matas primárias, secundárias e reflorestamentos, a construção de barragens em pontos estratégicos para sanar o impacto das enchentes, o tratamento dos esgotos das cidades e bairros ribeirinhos, o tratamento adequado de lixo e dejetos, a educação ambiental das populações locais, a ampliação da escolaridade, da formação profissional e da ocupação da mão de obra ativa.

A história das enchentes demonstra a necessidade de inversão do raciocínio e da acomodação histórica: não deixar para depois dos eventos de cheia a solução estrutural, mas realizar as transformações estruturais incluindo a permanente ameaça das enchentes e suas decorrências danosas à população e à economia local. A cidade de Palmares, consequentemente, não solucionará sua relação com o Rio Una, enquanto as enchentes forem mistificadas, citadas como episódios estanques, desconhecidos historicamente. A questão passa pelo conhecimento histórico a respeito das enchentes e de sua interação socioambiental.


Conclusão:

O principio da sustentabilidade abarca o conjunto destas estratégias descritas no último tópico e promove uma experiência de desenvolvimento local capaz de reverter a lógica predatória introduzida pelo latifúndio, há mais de três séculos. Talvez, por isto, a questão das enchentes, historicamente falando, no imaginário da população, tenda a se despolitizar. Depois dos estragos e dos processos de retomada da cidade tem-se um súbito esquecimento de que o fenômeno aspire à repetição do ciclo natural e dos agravos das mudanças climáticas em curso.

A questão, portanto, é politizar o tema das enchentes, torná-lo a principal agenda da comunidade, mobilizar governos, estudos técnico-ambientais e financeiros, ou seja, acionar um conjunto permanente de lideranças e instituições interessadas na solução definitiva do problema. O salto de qualidade da questão é torná-lo assunto estratégico, inseparável da equação envolvendo diversificação econômica, formação tecnológica e ambiental.


REFERÊNCIAS:

DRUMMOND. J. A História Ambiental: temas, fontes e linhas de pesquisa. Estudos Históricos, 1991.

EISENBERG, Peter L. Modernização sem mudança. A Indústria Açucareira em Pernambuco, 1840-1890. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977.

NASCIMENTO, Luis do. História da Imprensa de Pernambuco, vol. XIII, Recife, Imprensa Universitária. 2002.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura com Missão. Tensões Sociais e Criação Cultural na Primeira República. São Paulo: Companhia das Letras. 2003.

WORSTER, Donald. Para fazer História Ambiental. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v.4, n. 8, 1991.

Comentários

  1. Caro Profº Vilmar Carvalho;
    Passo a ser seguidor do seu maravilhoso blog. Para os amantes da História, um blog que alimenta o nosso conhecimento, pelo maior historiador/ professor de História de Palmares. Parabéns!
    Abraços, Profº Clóvis Siqueira


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